Costumava contar os dias, assim como as horas, os minutos e até mesmo os segundos. Agora, encontro-me um bocado perdido no que toca ao tempo.
- Que tempo?
- Perguntas bem; nem eu sei bem dizer qual o tempo. É confuso, não achas?
Talvez eu seja também um tanto ou quanto confuso e esteja a fazer disto tudo uma grande confusão. Eu creio que este tal tempo tem algum significado. Faço uma ideia do que é, mas digo-te depois.
Lembro-me que a ultima vez que contei ia em dois meses, quatro dias, dezanove horas, vinte e seis minutos e cinquenta e três segundos. A partir dessa altura, não me recordo. Perdi-o. Já o procurei debaixo da cama, mas nada. Acho que vou procurar na gaveta das meias. Talvez devesse ter escrito, não sei. Também se tivesse escrito, provavelmente, perdia o papel e há tantos papeis que nunca mais o encontrava. Sorte a minha, hein?!
Remexi cá dentro, descobri que foi numa noite qualquer.
- Qual noite?
- Fazes sempre boas perguntas e eu nunca te sei responder. Foi aquela noite… em que Ela... aquela noite…
- Não percebi.
- Tudo se resume a Ela.
- Ela? Quem?
- Digo-te depois.
…Assim que a vi, caíram gotas de suor das minhas mãos, as pernas tremeram como se estivessem 10 graus negativos, ao contrário do peito que ardia como se estivessem 50 positivos. Os olhos fixaram-se nos dela. O coração acelerou de tal maneira que acabou por parar. Nessa altura, o tempo parou.
- Qual o tempo? Já estamos a falar de dois tempos diferentes.
Naquele instante em que os nossos olhos estabeleceram uma ligação tão forte, que aquilo que nos rodeava, desapareceu. É aí em que este tempo pára, em que o que se mexe, fica sem reacção; o que fala, cala. É como se o mundo fosse só eu e Ela, o resto não existisse.
- Isso quer dizer que encontraste o outro tempo?
- Não.
- Então?
- É complicado.
…O outro tempo, é o tempo que passou desde essa noite até hoje. Nunca mais a vi. É estranho. Com ela o tempo para, sem ela anda depressa de mais. Tão depressa que acabei por me perder nele, no tempo. Só sei que sinto a falta dela em cada minuto que passa e anseio por o poder juntar outra vez. O sol é nublado quando ela não está…
- Mas quem é ela?
- Hmm, é melhor ficar só para mim.
- Não vais perder como o tempo?
- Não, como o meu amigo Diniz diz – “vou guardar no meu cofre esquerdo”, a chave está no bolso das calças de ganga…
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Um comentário:
Adorei... Mesmo a sério. O texto está lindo, expressivo qb e não muito demonstrativo.
Leva-nos a algum lado (não sei bem onde) ter com alguém (não sei bem quem)
Isso é óptimo.
Por momentos, vi-me a sair da minha cadeira, do meu quarto, da minha casa e viajar pela cabeça desse rapaz que é um "tolo" quando a vê, a Ela.
Parabéns
Abraço
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